Momentos, pequenos instantes.




- Estás apaixonada por ele, não estás? - A dúvida escapa-me dos lábios, e enrosca-se traiçoeira no peito. É sufocante, odioso. Consigo sentir a minha respiração entrecortada escapar-me debilmente, e os sussurros saírem tremidos. Demasiado inseguros. – Assusta-me a banalidade com que proferes essas palavras, sabes? A forma singela e fácil como falas de um sentimento demasiado grande para nos caber no peito, e demasiado importante para se agarrar com as mãos, e me desarmas sem dó nem piedade, quando sabes bem que não posso responder a isso. Não enquanto me recusar a cair na banalidade de cantar aos ventos, aquilo que me confunde o coração. – A tua gargalhada venenosa penetra-me os poros e atiça-me a cólera. Encaras-me como se me tratasse de uma cobarde, sem escrúpulos, nem mágoas passadas. Como se fosse uma tela nua, onde se pode pintar e apagar qualquer memória, sem restício de preocupação nem dano. – É uma simples pergunta, Cláudia, com uma simples resposta. Pode começar num “s” e acabar num “im”. Ou começar num “n” e acabar num “ão”. No entanto, sabes bem que qualquer que seja a resposta que te permitas a dar, não serás verdadeira contigo própria, enquanto não aceitares e guardares dentro de ti aquilo que dizes. – Encarei as mãos trémulas de sofrimento. Ela tinha razão, fosse quem ela fosse. Era uma simples pergunta, que me entrava na mente decorada de floreados e ganhava novas cores e formas. Novas pontas por onde se pegar, e novos pontos por atar. - As palavras agarraram-se à garganta sempre que as tento gritar, e os sentimentos prendem-se no âmago, sabes? Não posso simplesmente responder a algo incompleto, e demasiado complexo. Apenas posso aceitar os bocadinhos de afecto que deixo escapar momentaneamente, entre sorrisos e olhares desencontrados. Porque é apenas isso que posso ter agora. Momentos! Pequenos instantes de tempo, onde me lembro como é amar alguém, e não sinto o medo possuir-me o corpo sempre que penso em fazê-lo de novo.


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