Lís (1)


Hoje, enquanto apanhava pedacinhos de sonhos espalhados no ar, encontrei um piano branco perdido no negrume da noite. Era levemente perfeito, sabes? Com a distinção das arestas limadas e rosto polido de afeição, fez-me lembrar de ti. Do teu sorriso leve de menino crescido e os olhos incertos de candidez. Perfeito, na medida certa de o ser. Sorri, quando me aproximei fascinada do objecto cálido, como se fosses tu. Toquei duas notas desgarradas no piano como se dedilhasse os dedos pela tua face, mas estas soaram incrivelmente perdidas. Tão perenes e sem vida, que me congelou o âmago e me arrancou o sorriso. Aquele não poderia ser o teu som. Pelo menos não quando acompanhado do meu afecto. No entanto, o som flutuava no ar como se de um fumo de palavras garridas se tratasse. Tão cru e venenoso, que as lágrimas brotaram descuidadas dos meus olhos. Agarrei uma batida que escapou trémula do meu coração. Talvez o piano estivesse estragado, ou as cores da noite trocadas. Talvez não fosses, de facto, tu a alma do pequeno piano branco, ou talvez, numa idealização hedionda da realidade, as minhas mãos não estivessem destinadas a percorrer os contornos do teu corpo. Serias tu apenas uma mera ilusão dos sentidos, ou demasiado perfeito para a minha falência? A dúvida escapou-me dos lábios rosados de antecipação e escorregou no piano branco agora molhado pela chuva que me arrastava a mágoa. A única certeza que tinha gravada por trás das pálpebras húmidas, era que o piano branco que agora era apenas um contorno distante da noite, me ficaria gravado no sono. Assim como o teu rosto.


Lís

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