Aquele silêncio ensurdecedor cortava-me os pensamentos dificultando-me a respiração. O quarto estava escuro, morto, como se fossemos dois pesos fatais à espera do confronto. As mãos dele agarravam-me com força os cabelos, e a minha cabeça doía pela força com que ele colava as nossas testas. - Sentes isto? – Perguntei recusando-me a olhá-lo nos olhos. Eram armadilhas traiçoeiras que me faziam engolir em seco e suportar os calafrios no corpo. – Sentes o egoísmo a percorrer-nos o âmago, deslizando dolorosamente até à ponta dos dedos com os quais desenhamos o nosso destino? – Éramos seres insanos. Eu porque trilhava essências com o intuito de o fazer sentir, e ele porque me observava passivo destruir tudo o que éramos, apenas para fugir da afeição. – Eu não sinto, já te disse antes. – Agarrei-lhe a camisa fazendo todo o meu corpo colidir com o dele, como se toda a emoção desmesurada que sentia pudesse ser passada para ele. – É mentira. Desliga isso, por favor. Só hoje. – Conseguia encontrar desespero nos seus olhos, como se o seu interior travasse uma luta incansável. – Desligo o quê? – Perguntou deslizando as mãos até ao meu rosto. – Esse mecanismo de superioridade que te faz suster a máscara de que não te importas com ninguém. – Os olhos dele abriram-se em demasiada descrença, enquanto um sorriso perverso se formava no canto dos seus lábios. – Mecanismo de superioridade? Não entendes mesmo nada, pois não? Estás tão habituada a tentar mudar aquilo que sou, que nunca te deste ao trabalho de tentar compreender o que me motiva. É esse o primeiro erro humano. Agarram-se com tudo às qualidades daqueles que amam, e descuidam-se dos defeitos. Em vez de aceitá-los, tentam por tudo distorcê-los, torna-los mais afáveis. É por isso que eu não sinto. É mais fácil. – Colei os meus lábios aos dele, numa tentativa fútil e desesperada de lhe provar que estava errada. – Não é mais fácil. É cobarde. – Sussurrei contra a sua boca. – Chama-lhe o que quiseres, mas não lhe atribuas falsidade quando sabes que é a mais pura das verdades. Quando desistes de sentir, a dor passa a ser apenas uma palavra, sem qualquer tipo de significado. É vazia. É por isso que não sou como tu. Não choro todas as noites por um amor que tento a todo o custo criar. Não destruo aquilo que sou em função do outro. Entendes o que te quero dizer? Pode ser duro de aceitar, mas é por isso que enquanto à minha frente está a pessoa mais patética do mundo, à tua está um sobrevivente. Sou feliz assim. – As lágrimas rolavam agora ácidas no meu rosto. Ali estava a resposta a toda a sua indiferença. Era por causa daquilo que eu não era feliz. – És mesmo? – Observei um sorriso melancólico formar-se na sua cara, enquanto uma lágrima solitária molhava os seus lábios. – Bem, não existem planos perfeitos.

sigo *-*
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