Acredito que chegou o momento de dizer adeus. Não, não olhes para trás. O passado é pútrido e rude, não é algo que queiramos encarar neste momento. Sim, podes dar-me um abraço de despedida; mas por favor fá-lo rápido e debilmente. Não quero ter a tentação de espetar as unhas nas tuas costas, numa tentativa frustrada de não te deixar ir. Apenas um ligeiro aperto de afeição, somente para tornar o adeus mais afável. Já que estás a sair, por favor leva tudo o que te pertence. As minhas coisas estão guardadas naquele mesmo local de sempre. Sim, aquele onde te acostumaste a entrar sem permissão. Não vás lá, está bem? Sei que por mais vezes que mude as fechaduras, acabas sempre por arranjar maneira de lá regressar. Engraçado, não é? Nunca lá tinha deixado entrar ninguém, e no entanto, era quase confortável sentir o teu cheiro impregnado naquelas paredes. É, tolices de uma mente apaixonada! Sim, as tuas estão nas prateleiras de cima; naquelas onde não consigo chegar. Guardei-as o mais alto possível para ser incapaz de lhes remexer depois de teres partido. Sabes o quão é difícil resistir às pequenas memórias que vais deixando pelo caminho, não sabes? Não, os sorrisos também lá estão. E os choros e até mesmo as gargalhadas que ias soltando pelos cómodos do meu corpo. Tudo isso está lá em cima, completamente fora do meu alcance. Já tens tudo? Óptimo, agora sim podes ir. É claro que vou sentir a tua falta. Vou desejar o teu corpo ao lado do meu todos os dias; vou chorar encostada à minha almofada todas as noites. Talvez até tenha que controlar fervorosamente a ânsia de te ligar. Sabes bem que vou ter saudades de tudo isto. De nós! É só que agora, tenho mais saudades de mim. De como eu era antes de ti!
Já começo a sentir a tua falta, palerminha.
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