It wasn't meant to be.




- Não te quero magoar. – Disse-lhe eu de sorriso crispado e olhos melancólicos. – Sempre foste demasiado, para agora não seres nada. – Uma batida entrecortada, e as lágrimas fluíam venenosas na minha face. Não gostava desta sensação de mãos trémulas e de coração na boca. Era angustiante, e cortava-me a respiração já ténue. – Consegues entender isso? Por favor, diz-me que sim. – Não éramos perfeitos. Eu e ele éramos como uma música inacabada cheia de potencial. Sem batida, sem ritmo, apenas as palavras vivas e cheias de afeição. – Então, explica-me o porquê! – A ordem voou como um sussurro tenebroso dos lábios dele até à minha face. – Não consigo explicar. Apenas sentir. – Já não sorriamos pretensiosamente como sempre que estávamos magoados. Já não atacávamos. Agora estávamos passivos, como se soubéssemos que tínhamos esgotado todos os movimentos, e que cada passo em falso era mortal. – Tenta Cláudia! – Os soluços tornaram-se insuportáveis. Não sabia magoar alguém tão efémero e perene como ele. Uma utopia tão real. – Desculpa, é difícil. Não há um manual nem um guia que nos diga como tornar isto mais fácil, mais suportável. – As expressões estavam esmorecidas. Pálidas e vulneráveis. Como um arrufo de dor que nos trespassava os sentidos. – Eu não sou nada, já percebi. – Os meus olhos abriram-se muito deixando as últimas gotas de remorso escorrerem livres pelo rosto. Apanhei-as com a mão. Quase que conseguia sentir o seu sabor salgado, e por momentos desejei que elas me corroem-se a língua e me impedissem de proferir qualquer outra palavra. – Não és nada? Idiota, tu és tudo. Sempre foste tudo. Se hoje eu estou aqui, de cabeça erguida, corpo erecto e mágoa espelhada nos olhos, é por tua causa. Era tão fácil respirar à tua beira. Era como ouvir as notas melodiosas de um piano e entender perfeitamente a sua cor. Abrias-me a alma, e acalentavas-me o espírito. Nunca te disse, mas fazias-me feliz com cada sorriso que erguias na minha direcção, e com cada vez que o meu nome dançava harmonioso nos teus lábios. Eras-me tanto, que me frustrava de cada vez que tentava apanhar-te com as minhas mãos pequeninas. Simplesmente não cabias. Eras dono de ti próprio, e de mim, simultaneamente. Tinhas-me tão cativada na palma da mão, que só tu eras capaz de me aquecer o corpo e o alento. E dói-me, sabes? Queima-me o pensamento relembrar das vezes que fugiste. Das vezes que partiste sem remorso nem saudade. Do ardor com que me lembravas que não pertencias a ninguém, sempre que eu começava a acreditar que tinha capturado um pouco de ti. Lá ias tu. Audacioso, firme, com um rasgo de mim guardado no bolso. Não te limitavas a abraçar pequenas memórias, não. Arrancavas pedaços inteiros do que sou. Vezes e vezes sem conta, até não sobrar nada para guardares. Até eu ser apenas osso sem borrões de sentimento. É por isso, é por isso que já não te posso dar nada. Levaste tudo! – Inspirou brutalmente, fazendo-me perceber apenas naquele momento que até então tinha estado a suster a respiração. A expressão era indecifrável, e as palavras ainda se formavam na minha garganta como se estivessem a ser arrancadas a ferros. – Uma vez disseram-me que nós éramos almas gémeas. – Continuei, sentido o peso de cada sílaba. – Achei ridícula a afirmação confesso. Almas gémeas são falaciosas assim como amores eternos, pensava eu. Acho que me encontrava errada em relação à primeira parte. Uma vez li que almas gémeas não são necessariamente aquelas pessoas com quem passamos o resto das nossas vidas. São aquelas almas fugazes, que entram nas nossas vidas apenas para mudar tudo aquilo que conhecemos. Essas fazem mais diferença, fazem-nos crescer e tornam-nos fortes. Por isso, agora não compreendo a afirmação como ridícula, apenas difícil de aceitar. Assim como todas as verdades dolorosas.

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