Sabes, às vezes gosto de imaginar um desfecho diferente para ti. Às vezes, mas mesmo só às vezes, gosto de pensar que o teu sorriso não é apenas um rasgo de frieza. Preenche-me a alma imaginá-lo como um gesto suave e ao mesmo tempo firme. Talvez por isso goste de o pintar com cores diferentes. Por vezes um azul angelical e noutras um encarnado luxuoso. Assim fica de certa forma menos vago e fútil, e mais cálido. Robustamente mais aconchegante. É revigorante, posso dizer-te. Tal como o teu olhar. Adoro saboreá-lo como mais do que um artifício dos sentidos. Gosto de imaginar que me despe o corpo e me rouba o espírito. Que me enternece os sonhos e os torna mais audaciosos. Mais meus e menos teus. Sim, às vezes gosto de te mudar. Gosto de te amar de uma forma mais livre. Menos sufocante e dependente. Penso sempre que isso revogará ao desejo de te apagar. Que assim, e talvez assim, me tomes os lábios ávidos e que eu consiga por fim sentir o deu adocicado tacto. Sem truques nem manhas. Sem mentiras e desassossego. Apenas tu e eu, completamente nus de pensamento. Isso porque às vezes, quando paro de te tentar mudar, me apercebo da força com que te amo. E é assustadoramente irrevogável perceber que não está nas minhas mãos moldar-te. E que no entanto, as tuas se apertam em volta do meu corpo, conferindo-lhe a feição que almejarem.

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