We're the same !



O calor percorria os nossos corpos sedentos um do outro. Sentia a tua respiração ténue e fresca no meu pescoço e por momentos formulei cuidadosamente as palavras na minha mente.
- Tens noção que um dia eu me vou embora?
- Não, não vais (…)
Esbocei-te um sorriso forçado e irónico.
- Como tens tanta certeza? Sabes que a qualquer momento posso partir! Não tenho nada que me prenda, nem nada que me queira prender. As palavras que todos os dias me atiças já não são capazes de provocar aquele desejo viciante de ti. Confessa que sabes que me estás a perder.
Encaraste-me confiante e sorriste para mim como se fosse tão fácil para ti enganar-me. Afinal, quem era eu? Para ti apenas mais um ponto na linha desunida da tua vida. Que diferença faria a ausência desse ponto? Nenhuma, acredito!
- És engraçada, sabes? Falas de promessas e juras furadas, mas a verdade é que nem as tuas próprias consegues cumprir.
Olhei-te desconexa de compreensão. Terias te tornado mais maduro numa questão de segundos? Ou teriam sido as minhas palavras veementes que estimularam o alcance do teu pensamento?
- Não é verdade. Estou certa que conheces mais esses terrenos que eu.
- Sim, de facto conheço. Mas pensa (…) Achas sensato discordar de mim neste aspecto? Logo eu, que segundo a tua sábia vivência me encontro tão fluente neste tópico?
Vagueei fundo no meu consciente e senti-me por momentos frustrada. Estarias tu a ganhar terreno neste jogo de palavras que eu te conhecia como desconhecido?
- Francamente não encontro sentido no teu ponto de vista.
Soltaste uma gargalhada jocosa pelo cómodo que me fez retrair e encarar-te determinada.
- É simples (…) Se perspectivares o quadro desprovida de emoções aperceber-te-ás que nos encontramos empatados na incapacidade de cumprir juramentos. Olha verdadeiramente para ti e encontra a solução para este enigma. Sabes bem ser capaz!
Olhei pateticamente para mim procurando encontrar respostas. A verdade é que a surpresa rondou o meu corpo. Mais uma vez, a certeza de que me eras desconhecido imperou. Impossível não te conhecer por completo. A ti (…) Que delineias o meu subconsciente todos os dias.
- Não estou mesmo a perceber.
- Tudo bem, eu explico (…) Na verdade somos tão simples como montar as peças perdidas de um puzzle. Passamos os dias a procura-las e a tentar frutuosamente que elas façam sentido. No entanto, no final deparamo-nos com o mesmo obstáculo vezes e vezes sem conta. Tememos encaixa-las correctamente, como se as arestas necessitassem de ser limadas e polidas.
Abri a boca para te contrariar na incapacidade de verosimilhança.
- Sabes bem que não temo a junção de peças conjugadas, mas sim a metamorfose da deformação. Como saber que as peças pertencem realmente juntas?
Pegaste na minha mão e colocaste-a junta à tua observando os meus minúsculos dedos ocuparem apenas algum espaço da tua palma.
- Parece-te que encaixamos perfeitamente? – abanei a cabeça negativamente – Nem a mim (…) No entanto, sei que pertencemos exclusivamente um ao outro. Somos iguais em tudo, não negues!
Abri os olhos em descrença e tornei-os a fechar. Não me conhecia igual a tamanha deformidade. Por outro lado, temia-me equivalente a tamanha perfeição de ultraje.
- Prometeste que deixarias de me amar (…) Já não me amas?
Voltei a olhar-te furiosamente. Talvez o insignificante ponto tivesse de facto o seu resquício de importância.
- Juraste que não voltarias a sucumbir às minhas palavras (…) Conseguiste atingir esse propósito? Asseguraste-me indigno de voltar para ti (…) mantiveste-me longe?
Aconcheguei-me mais no teu peito assim que as palavras começavam a ter lógica na minha mente.
- Sabes bem que tudo isso são repercussões tuas, apenas isso.
Senti-te apertar-me num abraço não caloroso, mas asfixiante. Como se me sentisse de facto presa a uma masmorra aberta.
- Sim, eu sei (…) Entende agora que te (re) desenhei de acordo comigo. Por isso é que sei que não vais partir.

 


Sem comentários:

Enviar um comentário