Everything ends with a Goodbye!





- Já não reconheço aquilo que és, sabes. Desde a ponta arrebitada do teu nariz rechonchudo, até aos lábios carnudos que hoje exibem esse sorriso de menina-mulher, tudo me é frustrantemente desconhecido. Ainda ontem choravas por um joelho esfolado, e tinhas pesadelos com monstros debaixo da cama, e hoje estás aí. Afundada em sentimentos desmesurados, e agarrada à almofada como se isso impedisse o teu coração de fugir do peito. Os teus olhos já não têm aquele brilho infantil, estão mais maduros, e as tuas gargalhadas já não são estridentes. Agora medes o som para não caíres naquele adorável exagero que te preenchia a alma. Ele roubou-te tudo isso, princesa? Tornou-te fria e menos afável. Fez-te empunhar uma máscara cedo demais, foi o que foi. Gostava de o poder repreender por isso. Ele roubou-te de mim. Roubou-te de ti, e tenho muito medo que não te consigas voltar a encontrar se ele não estiver por perto. Dói, não é querida?

- Sim, hoje dói, mas amanhã não vai doer mais. Dói perceber que os super-heróis acabaram, e que os monstros habitam de verdade dentro de nós. Que um beijinho no rosto da mama ou do papa não vão curar corações amargurados, e que a responsabilidade agora é nossa. Hoje olho-me no espelho e apenas consigo encarar as lágrimas que escorrem singelamente na minha cara. Vão deixando um rasto molhado que me marca o rosto, personificando a dor que se acomodou no meu espírito. A dor que me obriga a fechar os olhos e a relembrar tempos passados. Quando os únicos motivos para os meus lábios se crisparem, eram os tombos de bicicleta, ou a ausência dos gelados todos os dias. A ingenuidade característica de tudo o que é mais belo. Isso foi-se. Hoje encaro de olhos fechados o baloiço que tantas vezes me fez subir e descer, numa harmonia melodiosa, e vejo-o aproximar-se de mim. De sorriso nos lábios e olhos melancólicos dá-me um olá envergonhado. Eu limito-me a afastar-me. Desço do baloiço e deixo-o lá sozinho, com as esperanças estilhaçadas e o sorriso desvanecido. Como tantas vezes o vi fazer a mim. Como uma criança, limito-me a imitar comportamentos, como se de uma inocente brincadeira se tratasse e fujo da minha felicidade. E sabes, hoje isso dói. Amanhã não vai doer mais. Afinal, a escolha foi minha.

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