- O que vais fazer agora?
- Agora? Agora vou chorar. Vou pesar a cabeça nos ombros e soluçar. Vou agarrar o meu coração rechonchudo e apertá-lo contra mim. E apesar de tudo, ainda me vou espantar por ver o quanto ele cresceu. Vou recordar a altura em que ele me cabia na palma da mão num aconchego saudável, e arrepender-me de ter permitido que o tornasses mais volumoso. Vou lamentar não ter tido coragem suficiente para to arrancar das mãos mais cedo. E vou chorar mais. Vou encará-lo pesarosa. Encarar o rasgo de alma avermelhado que seguro firmemente nas mãos e aperceber-me que não o reconheço de todo. Os seus traços e linhas serão desconhecidos, e a sua forma dolorosa. E no fim, vou ser assombrada pelo choro novamente. Vou encarar o espelho e tentar vigorosamente disfarçar as expressões de dor. Vou abraçar o meu próprio corpo e sussurrar palavras doces de conforto. E talvez um dia consiga controlar o meu corpo. Talvez um dia seja capaz de parar as lágrimas e os espasmos de dor. Talvez um dia seja capaz de me levantar e encontrar o sorriso até então desfalecido. E talvez nessa altura, seja capaz de vos dizer sem arrependimentos, como é doloroso pedir que nos devolvam um coração cedido tão fácil e involuntariamente. Mesmo sabendo os estragos que iam sendo acumulados no mesmo pelas mãos corruptas daqueles que não conseguimos desaprender a amar.
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