Malditas sinapses !




- Porque gritas tanto de noite?

- Acordo suada, sufocada nos meus próprios gritos abafados. Sonhei outra vez com ele, acreditas? Mesmo sabendo que já não o sei sonhar. Mesmo sabendo que já não tenho capacidades para o amar, não sou capaz de o desligar do meu cérebro. É como se as sinapses nervosas estivessem sempre prontas a responder aos seus estímulos. Mesmo sabendo o quão falsos e hipócritas eles são. Assim como os sentimentos que acreditei nutrir por ele. Gosto de imaginar que eram falácias, e que a qualquer momento poderíamos mudar o valor de verdade das suas premissas.  Particulares, elas sempre foram. Pertenciam-me a mim exclusivamente, porque a reciprocidade das mesmas era a ilusão mais satisfatória que me incutia a mim própria. No entanto gostava que fossem falsas, inequivocamente falsas, rotas e cruas. Talvez assim fosse mais fácil atingir a morte cerebral, mesmo depois de o coração já ter perecido.


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